20 de set de 2010

Mísseis Antitanques



Autor: Bosco



Desde o aparecimento dos veículos blindados nos campos de batalha da PGM que os exércitos, mais precisamente a infantaria, perseguem um meio de destruí-los.

No início foram usados fuzis de grosso calibre, mas logo tal equipamento se mostrou menos eficaz frente a blindagens mais resistentes, e outras soluções tiveram que ser encontradas.
Cargas explosivas convencionais se mostravam pouco úteis contra a grossa blindagem dos novos veículos de combate por não direcionarem a energia da explosão, que era dissipada sem causar dano.
Tudo mudou com a introdução de cabeças de combate dotadas do conceito “HEAT”, “alto-explosivo antitanque” ou “carga ôca”. A mesma é formada por um cone de cobre à frente de uma potente carga explosiva confinada em um recipiente de aço. Ocorrendo a explosão o cone de cobre é fundido e ejetado a grande velocidade (mais de 8 km/s). Embora de pequena massa, a velocidade desse “fragmento” garante um enorme poder de perfuração e de destruição.

The Ataka anti-tank guided missile. 

Tal dispositivo possibilitou que uma carga explosiva relativamente reduzida pudesse destruir um pesado veículo blindado o que permitiu que armas portáteis antitanques fossem desenvolvidas. Novamente os blindados se viram em maus lençóis frente à infantaria.
Outra inovação foi a carga HESH ou “alto-explosivo plástico de cabeça moldável”. Tal conceito visava destruir o tanque pelo efeito das ondas de choque geradas pela forte explosão de um explosivo plástico intimamente adaptado na superfície externa da blindagem. O objetivo não era romper a blindagem e sim causar um colapso estrutural no tanque e ferir a tripulação.
O problema é que as granadas que lançavam essas cargas tinham o alcance de no máximo algumas centenas de metros, tornando aqueles que as utilizavam vulneráveis ao fogo supressivo de metralhadoras a partir dos veículos e das tropas que os acompanhavam.
Uma nova solução se fazia necessária e foi buscado um meio de atacar a partir de maiores distâncias. Para tornar viável esse incremento de alcance era fundamental o uso de um propulsor que fosse acionado após o lançamento, o que invariavelmente gerava desvios na trajetória original e onde os métodos convencionais de estabilização se mostraram deficientes.

German Anti-Tank Rifle

A solução se deu no sentido de prover um “sistema de guiagem” que pudesse compensar os desvios de trajetória de uma granada decorrentes do acionamento de um foguete fora do tubo de lançamento, agravados ainda por fatores externos, como por exemplo, a velocidade e a direção do vento e o deslocamento do “alvo”.


CLASSIFICAÇÃO DOS MÍSSEIS ANTITANQUES


Qualquer tentativa de classificar um sistema de armas é invariavelmente fadada a gerar polêmica, tendo em vista que algumas injustiças podem ser cometidas. Em relação ao vasto universo dos “mísseis antitanques” não é diferente, mas, tendo em mente o melhor entendimento sobre o tema, se faz necessário que sigamos uma classificação mesmo que “artificial”.
Mísseis antitanques podem ser classificados de diversas formas tendo em vista suas características peculiares.
Quanto ao alcance máximo podemos classificar os mísseis antitanques da seguinte maneira: até 4000 metros, em geral, se diz que o míssil tem alcance visual (LOS), sendo de curto alcance até 1000 metros e de médio alcance entre 1000 e 4000 metros. Além de 4000 metros se diz que o míssil tem grande alcance ou alcance “além do visual” (BLOS).
Quando o míssil é capaz de engajar alvos fora da linha de visada, ou seja, encobertos, se diz que ele tem capacidade NLOS.


Outra classificação diz respeito à “portabilidade” do sistema de mísseis. São considerados “leves” os que podem ser levados por apenas um indivíduo; “médios”, os de uso coletivo, que precisam de pelo menos 2 indivíduos para serem transportados e disparados e “pesados” os usados em veículos.
Já classificá-los tendo em vista a evolução tecnológica ao longo do tempo, ou seja, em “gerações”, leva-se em conta o sistema de guiagem, embora um míssil de forma alguma se resuma apenas nisso.


PRIMEIRA GERAÇÃO  (1955)


Na chamada Primeira Geração de mísseis antitanques os mesmos eram teleguiados por meio de uma unidade de controle portátil que enviava sinais elétricos através de fios metálicos que se conectavam ao míssil. O operador tentava alinhar o míssil ao alvo visualmente com auxílio de uma luneta, fazendo os ajustes manualmente por meio de um rudimentar joystic, até que houvesse o impacto.
Esse sistema recebeu a designação de MCLOS, que é uma sigla que em português significa “Comando Manual Por Linha de Visada”.
A operação desses mísseis era muito parecida com a dos atuais aeromodelos, sendo extremamente complicada e exigindo muito treino e sangue frio, sem falar que deixava o operador vulnerável a um contra ataque, já que o mesmo não podia abandonar seu posto até que ocorresse o impacto.

Míssil SS-10 de Primeira Geração de origem francesa

Claro que tal sistema tinha pouca precisão por ser o “fator humano” preponderante para o sucesso.
Mísseis de Primeira Geração;
• Cobra
• Entac
• SS-10
• SS-11
• AT-2
• AT-3 Sagger
• Type 64
• Bantam
• Malkara
• Vigilant
Características dos mísseis de Primeira Geração:
• Controle tipo MCLOS (Comando Manual Por Linha de Visada)
• Elo de dados via fio metálico
• Ogiva tipo HEAT
• Aquisição visual do alvo

SEGUNDA GERAÇÃO (1967)

A Segunda Geração veio resolver os graves problemas de precisão inerentes ao comando manual da Primeira Geração e só foi possível com o avanço da microeletrônica.
A adição de um dispositivo pirotécnico no míssil, que permitia que o mesmo fosse rastreado pelo sistema de mira ótica no lançador, e a inclusão de um sistema de processamento nesse mesmo lançador, possibilitou que ele fosse controlado apenas mantendo o alvo no centro da linha de visada da mira. Diferenças angulares eram percebidas e correções automáticas eram implementadas recolocando o míssil na trajetória correta até o momento do impacto, bastando que o operador mantivesse o alvo no centro da mira. Tal sistema recebeu a designação de SACLOS (Comando Semi-Automático Por Linha de Visada).
Até hoje essa geração é a mais prolífica e a combinação com visores noturnos e câmeras de imagem térmica possibilitou que os mesmos fossem usados à noite, aumentando em muito sua flexibilidade e letalidade.

Míssil TOW de Segunda Geração de origem americana

O link entre o lançador e o míssil se dá por meio de fios metálicos ou radiofreqüência.
Unidades de comando mais sofisticadas dotadas de sistemas de processamento de imagens de maior capacidade conseguem inclusive rastrear de forma autônoma o alvo, ficando a cargo do operador apenas a seleção do mesmo antes do lançamento, o que reduz substancialmente a carga de trabalho. Tal método é conhecido como ACLOS (Comando Automático Por Linha de Visada).
Uma variante da Segunda Geração usa um laser de baixa intensidade emitido a partir do lançador que é projetado sobre o alvo e no qual um míssil dotado de sensores óticos voltados para trás consegue se autoguiar, mantendo-se no centro do feixe até que ocorra o impacto. Processo esse conhecido como “Laser Beam Rider”.
A Segunda Geração, além de trazer um maior nível de precisão, trouxe uma série de novas cabeças de combate cada vez mais inovadoras e letais.
Para se contrapor às blindagens mais resistentes as ogivas receberam aperfeiçoamentos. A mais evidente foi a adição de sondas extensíveis, que possibilitam a detonação na distância ideal para que as características da carga HEAT fossem otimizadas.
Também o uso de cargas HEAT duplas, montadas uma atrás da outra (em tandem), com disparo seqüencial, foram introduzidas na tentativa de se contrapor às “blindagem reativas explosivas” (ERA) que surgiram na década de 80. A primeira carga explosiva detonava a placa ERA, neutralizando-a, e a segunda perfurava a blindagem.
Outro avanço característica dessa geração foram os mísseis que atacam por cima, conceito conhecido como “overfly top attack” (OTA).

Míssil MSS-1.2 de Segunda Geração de fabricação nacional

O míssil que usa esse conceito voa em torno de 1 metro acima da linha de mira e quando se encontra exatamente sobre o alvo uma espoleta inteligente, ligada a sensores térmicos, magnéticos e laser, o reconhece e detona a carga explosiva tipo EFP (semelhante à HEAT) que foi montada de forma vertical, voltada para baixo. O fragmento de cobre fundido ejetado em velocidade hipersônica gerado na detonação é direcionado para a parte superior do tanque que é geralmente o ponto de maior fragilidade.
Esse conceito permite também que alvos escondidos atrás de coberturas (muros, trincheiras, etc) sejam atingidos.
O arranjo de cargas duplas dispostas em tandem com disparo seqüencial para se contrapor às “blindagens reativas” pode ser empregado também nesse conceito “OTA”.
Também houve a introdução de uma série de outras ogivas com finalidades diversas tendo em vista as operações assimétricas e a guerra urbana. Tais ogivas se mostram apropriadas contra estruturas, bunkers, veículos não blindados, pessoal desprotegido, etc.
Mísseis da Segunda Geração com link de fio metálico:
• TOW
• Dragon
• Shilelagh
• Bill
• Bill 2
• Erix
• SS-11 (Harpon)
• Milan
• HOT
• Swingfire
• AT-4 (Spigot)
• Type 79
• HJ-8
Mísseis de Segunda Geração com link de radiofrequência:
• TOW RF
• AT-6 (Spiral)
Mísseis de Segunda Geração guiados por “laser beam rider”:
• MSS-1.2
• AT-16 (Vikhr)
• AT-14 (Kornet)
• Ingwe
• Mapats
• HJ-9
Características da Segunda Geração:
• Controle tipo SACLOS , ACLOS ou LBR
• Elo de dados via fio, radiofreqüência ou laser
• Ogivas variadas
• Aquisição e rastreio do alvo por meios óticos ou por imagem térmica
• Trajetória direta




SEGUNDA GERAÇÃO E MEIA  (1982)
Uma classe à parte de mísseis antitanques é a dos mísseis guiados por “laser semiativo”. Essa classe de mísseis é designada por algumas fontes como sendo de “Segunda Geração e Meia”.
No sistema de orientação por laser semi-ativo o míssil se dirige de forma autônoma ao ponto onde um feixe laser codificado de alta intensidade está sendo projetado. Esse tipo de orientação permite uma série de alternativas como, por exemplo, o “travamento após o lançamento” (LOAL), modo no qual o míssil é lançado “cego” e só adquire o alvo após o lançamento. Tal método permite que alvos fora do alcance do sensor do míssil ou encobertos (fora da linha de visão do lançador) sejam engajados
Outra vantagem dessa classe de mísseis é que os mesmos não necessitam seguir uma trajetória tensa, em linha com o lançador, podendo adotar uma trajetória parabólica, que possibilita um incremento do alcance e permite que um MBT seja atingido por cima, na parte mais frágil, ou que seja transposto obstáculos de modo a que alvos encobertos possam ser atingidos.

Míssil Type 87 de “Segunda Geração e Meia” de origem japonesa

Também não se faz necessário que o lançador e o sistema de aquisição e designação do alvo, no caso o emissor do feixe laser, estejam alinhados. O alvo inclusive pode ser designado por qualquer designador qualificado e que possa codificar o feixe laser de modo a ser reconhecido pelo sensor do míssil, o que reduz a vulnerabilidade do operador/plataforma lançadora a um contra-ataque.
Mísseis de Segunda Geração e Meia:
• Hellfire
• Mokopa
• Type 87
• Nimrod
• LAHAT
Características da “Segunda Geração e Meia”:
• Orientação por laser semi-ativo
• Operação tipo LOBL ou LOAL
• Opção de trajetória parabólica
• Capacidade NLOS

TERCEIRA GERAÇÃO  (1994)
A Terceira Geração de mísseis antitanques foi desenvolvida para reduzir a vulnerabilidade do operador/plataforma a um contra-ataque, já que nas gerações anteriores (com exceção da “Segunda e Meia”) o operador invariavelmente ficava exposto durante todo o trajeto do míssil, desde o lançamento até o impacto.
Para isso foi necessário que o sistema responsável pela orientação fosse colocado no próprio míssil usando cabeças de busca autônomas, miniaturizadas, com sensores avançados de formação de imagem operando de forma passiva ou radares ativos de onda milimétrica (MMW).

Míssil Javelin de Terceira Geração de fabricação americana






Essa geração de mísseis reduziu muito o nível de intervenção humana, sendo necessário apenas e tão somente que o alvo seja previamente designado pelo operador antes do lançamento. Após o lançamento o míssil se dirige de forma autônoma ao alvo “travado” no seu sistema de processamento de imagem, sem nenhuma intervenção humana ou da unidade de lançamento/comando.
Há também a possibilidade de trancamento autônomo após o disparo o que permite que alvos fora do alcance do sensor do míssil ou encobertos (fora da linha de visão / NLOS) sejam engajados. Tal opção é pouco usada já que aumenta muito o risco de danos colaterais e “fogo amigo”. No caso do uso de orientação por radar ativo de onda milimétrica o míssil se posiciona até as proximidades do alvo, guiado até lá pelo sistema de navegação inercial, onde varre uma grande área com seu sensor e “trava” numa “assinatura” eletromagnética específica, condizente com um alvo válido (veículo blindado, canhão AP, MBT, etc)
Tais sistemas autônomos permitem que o operador, após o lançamento do míssil, possa se evadir ou engajar outro alvo já que o míssil se dirige ao seu objetivo por meios próprios, não necessitando de nenhuma “ajuda” externa. Esse conceito é conhecido como “atire e esqueça” (fire and forget).
Uma outra característica dessa classe de mísseis é que os mesmo, a exemplo dos mísseis guiados por laser semi-ativo, podem ser lançados em trajetórias parabólicas e não somente em trajetórias tensas como os da “Segunda Geração”.

Míssil Spike ER de Terceira Geração com data-link de fibra ótica de fabricação israelense.

Uma variante da 3ª Geração agrupa os mísseis que podem trocar informações com a unidade de comando após o lançamento permitindo a intervenção do operador. Para que isso ocorra o míssil deve manter um link de fibra ótica ou radiofreqüência com a unidade de lançamento/comando. Esse modo de operação é conhecido como “atire e atualize” (fire and update) e permite grande flexibilidade ao míssil, inclusive abortando o ataque, trocando de alvo ou escolhendo um ponto específico do alvo para ser atingido.
A possibilidade de manter o controle humano (man in the loop) parece ser cada vez mais desejada tendo em vista a redução de danos colaterais típicas de operações urbanas. Há quem designe essa classe de mísseis como sendo de Quarta Geração.
Mísseis de 3ª Geração guiados por “imagem térmica”:
• Javelin
• Maverick D
• Spike MR
• Pars-3
• Nag
• UMTAS
• OMTAS
• Type 01
• HJ-10
Mísseis de 3ª Geração com orientação por “radar ativo de onda milimétrica”:
• Hellfire Longbow
• Brimstone
Mísseis de 3ª Geração com data-link  (4º Geração ?)
• Spike LR
• Spike ER
• Spike NLOS
• Type 96 MPMS
Características dos mísseis de 3ª Geração:
• Modo de operação “atire e esqueça” ou “atire e atualize”
• Opção de trajetória parabólica
• LOBL ou LOAL
• Capacidade NLOS
• Aquisição por imagem visual, infravermelha ou radar

O FUTURO

Há fortes indícios que a Quarta Geração (ou Quinta, como querem alguns) será de mísseis com capacidade de “aquisição automática de alvos” (ATA). Tais mísseis serão “semeados” em uma determinada área, sem um alvo definido, e ficarão “vagueando” por várias horas varrendo o terreno abaixo com seus sensores. Teriam capacidade de reconhecer alvos válidos e atacá-los de forma autônoma, embora a possibilidade de intervenção humana seja preservada caso se julgue necessária.
Outra linha de desenvolvimento é a dos mísseis com múltiplos sensores. A miniaturização permite que dois ou mais sensores terminais (seekers) sejam combinados em um único míssil para que suas características possam ser aproveitadas nas mais diversas situações táticas.
Novos sistemas de orientação, como os que usam o laser de forma ativa (LADAR), capaz de gerar uma imagem tridimensional do alvo, estarão disponíveis. Essa tecnologia será essencial para a “aquisição automática de alvos”.
A capacidade de se contrapor à blindagem usando energia cinética também é uma opção que está sendo esperada para o futuro. Mísseis hipersônicos devem estar disponíveis nos próximos 10 anos.
Um fator relevante é que essa classe de mísseis, a exemplo de outras, estará completamente integrada ao conceito de “Guerra Centrada em Redes” (NCW), sendo tão somente “células” de um “organismo complexo”, em que se transformará uma força de combate.
Somando os variados sistemas de orientação, os diversos sistemas propulsores com as novas ogivas disponíveis, o velho míssil antitanque está se tornando uma arma multitarefa, apto a continuar a cumprir com eficiência as novas missões que hoje se lhe apresentam.



Nosso comentário:


Agradeço ao Plano Brasil e ao seu autor, o senhor Bosco, pela disponibilidade desta excelente reportagem em relação a material de defesa militar.
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